Embaixador russo explica situação do coronavírus na Coreia

Pyongyang, 26 de agosto (ACNC) — O Embaixador Extraordinário e Plenipotenciário da Federação Russa na República Popular Democrática da Coreia, Alexandr Matsegora, foi entrevistado no dia 19 por um repórter da “Rossiskaya Gazeta”, órgão do governo da Rússia.

A entrevista completa segue:

Pergunta: O presidente norte-coreano, Kim Jong Un, declarou vitória sobre a epidemia de Covid, e é relatado que o país diminuiu significativamente as restrições super-rígidas em vigor desde o início de 2020. A situação realmente voltou ao normal?

Resposta: O líder da RPDC, Kim Jong Un, declarou solenemente no Balanço Nacional do Trabalho Antiepidêmico de Emergência, efetuado no dia 10, o fim da proliferação de coronavírus, iniciada no final de abril. Deixe-me lembrá-lo que antes da variante Ômicron ter rompido as barreiras, atravessado a fronteira, e o primeiro paciente Covid ter aparecido aqui, este Estado era o único completamente livre do coronavírus no mundo. Tal sucesso indubitável foi alcançado graças a medidas muito duras, todos os tipos de restrições e isolamento absoluto do país.

Ao longo dos últimos dias, assistimos à abolição de uma série de requisitos, incluindo o regime de máscaras, distanciamento social, restrições ao horário de funcionamento dos estabelecimentos de serviço de abastecimento público de alimentos e a proibição de atividades coletivas, etc.

É permitido viajar para fora da capital, visitar locais de lazer e atrações em todo o país, com exceção dos localizados nas províncias fronteiriças e na “zona de frente”.

Em Rason, localizada no norte da RPDC, nossos especialistas foram autorizados a se banhar no mar e pescar.

P: E o que dizem as autoridades sobre a abertura das fronteiras?

Na reunião já mencionada, foi repetidamente enfatizado que até o fim da pandemia global de coronavírus, o regime antiepidêmico estabelecido na RPDC será mantido – agora seu nível simplesmente foi reduzido do máximo para o alto. A este respeito, algumas das medidas introduzidas mantêm-se em vigor.

Por exemplo, ainda são realizadas a medição de temperatura em locais públicos e a desinfecção em todas as localidades e o aperto de mãos foi proibido. A entrada no país permanece fechada.

P: Especialistas ocidentais questionam a veracidade das informações publicadas oficialmente na Coreia do Norte. Eles não acreditam que a Coreia do Norte não tenha tido nenhum caso até abril deste ano, argumentando que, dada a falta de equipamentos em seu sistema de saúde, a taxa de mortalidade deve ser muito maior do que dizem.

Não entendo. Por que a liderança da RPDC esconderia a verdade se casos de infecção tivessem realmente sido reportados nos anos 2020 e 2021? E como mostraram os fatos deste ano, o aparecimento de até mesmo 1 infectado certamente causaria uma epidemia em massa impossível de ser escondida. Nossa embaixada acompanhou com muita atenção a situação durante todo esse tempo, e declaro com toda responsabilidade: até abril-maio, não houve um único sinal de que a doença havia entrado no país.

Quanto às razões para a baixa taxa de mortalidade recorde (0,0016%!) perguntei aos meus colegas coreanos que, aliás, não negam que a qualidade do sistema de saúde aqui ainda está muito longe do desejável. Como me foi explicado, as razões para tal sucesso inquestionável são várias, e quase todas derivam das características específicas de um socialismo especial, o que eles chamam aqui de “Juche”, de estilo coreano: a mais alta organização e disciplina, um mecanismo muito claro e elaborado para tomar decisões e levá-las à prática, obediência incondicional às ordens e alta consciência.

Apenas um dia depois de os cientistas coreanos terem confirmado que o coronavírus chegou aqui, o Estado passou a funcionar em estado de emergência. O Partido, o exército, as estruturas econômicas, administrativas, legais e sociais foram mobilizados para superar a crise: todas as zonas territoriais foram completamente isoladas umas das outras e todo movimento dentro do país cessou completamente.

Os funcionários das empresas transitaram sob o estado de bloqueio e meios especiais de transporte foram alocados para sua assistência ao trabalho. Sair da casa só era permitido em circunstâncias extremas.

Os médicos de zonas, os médicos militares mobilizados para ajudá-los e os estudantes dos institutos superiores de medicina visitaram todas as casas e apartamentos várias vezes ao dia, identificando os infectados.

Qualquer pessoa que sentisse sintomas suspeitos era obrigada a reportá-los aos chefes de unidades de bairros, e estes, às direções antiepidêmicas regionais.

Apartamentos e casas onde infectados apareciam eram imediatamente bloqueados e apenas médicos militares em roupas especiais que entregavam medicamentos podiam acessá-los.

Grupos de serviço móvel foram encarregados de fornecer alimentos para as famílias isoladas.

O ramo de ciência e indústria farmacêutica procedeu ao desenvolvimento e produção de sistemas de teste, medicamentos antivirais e de tratamento, incluindo os baseados na medicina tradicional coreana.

O exército assumiu o abastecimento das farmácias, que passaram a funcionar 24 horas por dia, com medicamentos.

O líder do país ordenou a liberação dos materiais estatais de reserva necessários para superar a crise.

Em resumo, a vida das pessoas foram salvas graças à detecção instantânea e início imediato do tratamento para todas as pessoas doentes, sem exceção.

Bem, como o pessoal da embaixada também ficou doente com a variante “BA.2” que entrou na RPDC, devo dizer que a esmagadora maioria dos casos passou com bastante facilidade aqui. Talvez seja graças ao ótimo ambiente ecológico e os alimentos locais.

Durante 30 anos em Pyongyang, fiz muitos amigos. Não houve um único caso letal entre eles, entre seus parentes e familiares.

P: Há acusações contra a RPDC de que medidas antiepidêmicas tão duras pioraram a situação dos direitos humanos…

R: É uma hipocrisia impressionante. O direito à vida é um direito humano fundamental. Na RPDC, esse direito foi assegurado no contexto de uma epidemia que ceifou centenas de milhares de vidas em outros países. O que mais precisa ser dito aqui?

P: Foi tudo realmente tão tranquilo, como você diz, não houve nenhum erro?

R: Claro que houve erros. E o líder da RPDC falou abertamente sobre eles. Entre os maiores estão o atraso na detecção do coronavírus, a falha em tomar medidas imediatas para bloquear a região dos primeiros infectados, a falta de sistemas de teste suficientes e métodos de tratamento confiáveis.

Este último, a propósito, foi a principal causa de mortes. A situação teve que ser corrigida com pressa, para reparar algumas abordagens, e isso trouxe resultados.

P: A acusação feita em Pyongyang de que a infecção foi trazida para o território da Coreia do Norte a partir do Sul com folhetos enviados de lá causou muito barulho em Seul. Os sul-coreanos negam categoricamente isso, dizendo que a infecção através de objetos é extremamente improvável. O que pensa sobre isso?

R: A RPDC considera realmente que o vírus pode ser transmitido através de objetos.

Em uma conversa comigo, colegas coreanos reforçaram sua posição não apenas com a opinião de especialistas locais, mas também com declarações de renomados cientistas estrangeiros.

Para bloquear este canal de infiltração da infecção no país, foram equipados terminais em todas as passagens fronteiriças terrestres e portos marítimos, onde a carga chegada do exterior é desinfectada e deixada em até três meses(!) de quarentena. Este é um procedimento muito trabalhoso e caro.

Além disso, deve-se notar que no país são importados agora apenas os bens mais necessários, sem os quais não pode proceder.

Se o volume de mercadorias recuperasse os níveis pré-crise, seria necessário criar capacidades de quarentena de proporções ciclópicas, isso é impossível.

Portanto, as restrições às importações causadas por medos da Covid são um fator que tem um impacto muito negativo na economia, no estado do mercado de bens de consumo, nos preços …

Estou dizendo tudo isso para deixar claro: a liderança da RPDC não coloca necessariamente a responsabilidade nos sul-coreanos.

Aqui eles estão absolutamente convencidos de que estão certos e, apesar das perdas econômicas, fazem um grande esforço para proteger as pessoas do contato com objetos potencialmente inseguros.

P: Ok, digamos que a Covid tenha sido trazida para a RPDC por algum objeto. Mas por que Pyongyang tem certeza de que esse item veio da Coreia do Sul, e não, por exemplo, de Dandong, da China, após a retomada das entregas fronteiriças em janeiro?

R: Na RPDC, uma comissão especial de inquérito foi criada pelo Comando Estatal de Profilaxia de Emergência para esclarecer o surgimento da epidemia.

A conclusão elaborada pelos melhores especialistas, cientistas e investigadores forenses do país fornece provas convincentes de que um soldado e um menino, como dizem aqui, da “zona da linha de frente” foram os primeiros contagiados e que tiveram contato com panfletos e outros itens de origem sul-coreana.

O “pacote” parece ter sido lançado de um balão ou drone perto de um quartel do exército no condado de Kumgang, da província de Kangwon, a cerca de 10 quilômetros da zona desmilitarizada.

Quando citei aos meus colegas coreanos as declarações de especialistas estrangeiros de que supostamente a Covid veio da China, eles me mostraram o número de infecções diárias por províncias individuais – as áreas adjacentes às fronteiras do norte da RPDC foram as últimas a sofrer com a epidemia e o número de casos foi muito menor do que nas províncias do sul do país, as primeiras a sofrer com o coronavírus.

Devo dizer que Pyongyang entendeu que os resultados do trabalho da comissão de inquérito causariam uma tempestade de emoções no Sul. Eles começarão a negar tudo, acusando a RPDC de querer transferir a responsabilidade para a Coreia do Sul, para tentar de qualquer maneira impedir o envio de novos folhetos de propaganda.

No final, a situação na península no contexto da controvérsia do coronavírus se agravará ainda mais.

Este cenário não era desejado aqui. Por isso, os fatos obtidos durante a investigação foram repetidamente verificados e revistos.

Tudo, infelizmente, foi confirmado, sem deixar dúvidas – a Covid chegou aqui do território do Sul.

Os coreanos concordam que a probabilidade de transmissão do vírus através de objetos é extremamente baixa. Mas existe! Se levarmos em conta o fato de que dezenas de milhares de folhetos são enviados para a RPDC junto com notas e outros itens, o risco de infecção aumenta significativamente.

P: Kim Yo Jong disse que se os panfletos continuarem sendo enviados, um ataque de resposta destruirá não apenas o vírus, mas também as autoridades sul-coreanas. Como você comentaria sobre essa ameaça aberta?

R: Eu tomaria as palavras da sub-chefe do Departamento de Agitação e Propaganda do Comitê Central do PTC, Kim Yo Jong, com toda a seriedade. Aqui, em geral, tais ações dos sul-coreanos são comparadas com o uso de armas bioquímicas.

Tenho certeza de que a Coreia do sul continuará negando qualquer conexão entre o envio de panfletos para cá por ex-cidadãos norte-coreanos que desertaram para o Sul e a epidemia de coronavírus. Seul tem seus próprios argumentos.

No entanto, por que não levar em conta a séria preocupação da liderança da RPDC?

Na minha opinião, isso seria bastante razoável.

Ao evitar novas provocações com o envio de panfletos neste momento difícil, Seul enviaria um forte sinal a Pyongyang sobre sua prontidão para ouvir as preocupações de seu oponente.

Este poderia ser o primeiro passo para a normalização das relações entre o Norte e o Sul, a fim de evitar uma maior escalada de tensão na península.

Mas mesmo que essa normalização não possa ser alcançada, parece que pelo menos um esforço deve ser feito para garantir a coexistência pacífica.

A camarada Kim Yo Jong, a propósito, sugeriu aos sul-coreanos “vocês cuidam dos seus negócios, nós cuidamos dos nossos”.

Estamos falando de acabar com a interferência nos assuntos internos de um vizinho. Na atual situação difícil, essa fórmula parece bastante razoável.

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