A Coreia tem uma história LGBT bem mais vasta do que você pensa

O compreendimento do povo coreano sobre a homossexualidade é limitado e confuso por uma série de questões. A falta de conhecimento e comunicação sobre o tema prejudicam o debate, sustentando a ideia de que a homossexualidade é um fenômeno apenas contemporâneo, anormal e “impuro”. A ideia de que gays ainda são “portadores” da AIDS é comum, isso dificulta a vida dos homossexuais coreanos que se distanciam cada vez mais da vida pública, familiar e social.

Desde o período da dinastia Choson (1392–1910), a sociedade coreana foi fortemente influenciada pelo confucionismo, uma espécie de sistema de educação, cerimônia, religião, administração civil, etc. Há centenas de anos atrás, o confucionismo estruturou as bases dos sistemas familiares que se tornaram enraizados na cultura. Elementos de relacionamentos verticais, família patriarcal/conservadora, relutância com a mudança e centralidade da família acabaram influenciando intensamente a coreia nos seus séculos de história. A heterossexualidade foi constituída não só como norma social, mas também ética.

A família adquiri um papel particular na sociedade ao todo. É ela a responsável pelo status de estabilidade dos valores, da reprodução do que é justo, bom, ético e legal ao longo das gerações. A sociedade é vista como uma extensão da família, logo, o modelo patriarcal e heterossexual se tornaram a base normativa ao longo de inúmeras e inúmeras gerações.

Mas isso quer dizer que não tínhamos LGBTs na antiga coreia? Não! Os Hwarang são exemplos claros de como na antiga Coreia já tínhamos fenômenos do tipo. Os Hwarang eram considerados líderes de grupos militares ainda na dinastia Silla (935 A.C — 57 D.C) e eram espécies de filhos da nobreza escolhidos por eleição popular para compor esses grupos. Além das funções de servidão ao rei, respeito aos pais e seus papéis de verdadeiros guerreiros de elite, os Hwarang tinham uma específica cultura de erotismo e relações homossexuais internas. Historiadores apontam que no clássico livro Sam-Guk Yu-Sa, famoso por narrar as histórias da antiga Coreia, uma série de poemas descrevem as relações íntimas exercidas pelos Hwarang.

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Imagem do k-drama Itaewon Class, onde o ídolo de kpop Taehyung faz o papel de um Hwarang

Ainda um dos reis de Koryo, Kongmin era conhecido por ser um ilustre estudioso e pintor, mas também por suas relações profundas com a “pederastia” e as relações homossexuais. O termo “catamites” para a Grécia Antiga é dado para os jovens rapazes que geralmente acompanham os reis, já no contexto coreano o termo seria chajewi e a historiografia coreana aponta que o rei chegou ter até 5 parceiros assim. Na dinastia Koryo, a prática homossexual era descrita como “yongyang-chi-chong”, o dragão e o sol, implicando em uma relação de dois grandes símbolos masculinos.

Anos depois, com a extensa dinastia Choson e o avanço do confucionismo, a homossexualidade foi considerada um hábito perverso pelas classes de elite altamente confucionistas. No entanto é importante ressaltar que as práticas homossexuais eram relatadas e vistas de forma comum por outras classes e grupos, especialmente os rurais e de comunidades menores.

Uma outra prática milenar que também apontam como importantes polos da existência da vida LGBT na coreia antiga são os Namsadang. O próprio termo no vocabulário antigo era empregado tanto para os grupos teatrais e de atores dramáticos itinerantes que viajam pelo país com sua arte, como também para definir a prostituição homossexual de alguns desses grupos. É curioso que a coreia contemporânea não relacione o namsadang como antigas formas de nomear a homossexualidade.

O século XX para a coreia obviamente merece um texto só seu, inúmeros processos históricos são responsáveis pelo preconceito enraizado e contemporâneo. Desde o fim da Guerra da Coreia em 1953, o sul enfrentou várias ditaduras militares, todas com caráter bastante repressivo e conservador. Com a influência estadunidense, e a necessidade constante de combater qualquer ideia progressista, a LGBTfobia foi institucionalizada no estado. Estes processos unidos geraram uma sociedade silenciosamente mais agressiva com LGBTs nos dias atuais.

Na moderna coreia, a homossexualidade é frequentemente lida como uma doença, pecado ou doença mental. Era e ainda é bastante relacionada com travestivismo ou transgeneridade. Homossexuais masculinos ainda são lidos socialmente como “femininos” ou “travestis”. Desde a década de 1980, os homens homossexuais eram percebidos como portadores de uma real doença social, como se pudessem se tornar predadores das “pessoas comuns’’.

No Brasil, temos o infeliz título de país que mais mata pessoais transsexuais e travestis do mundo. Pode-se dizer que isso acontece por conta da nossa cultura de tratar sexo, sexualidade e vida pessoal de forma pública. Com isso, muitos se sentem à vontade para manifestar seu ódio contra a comunidade LGBT de forma violenta, e na maioria das vezes sem sofrer nenhuma consequência. Por outro lado, é essa cultura que nos permite disputar o ambiente público e conquistar vários espaços.

No caso da Coreia, diferente do Brasil e outros países, a conduta sexual e a discussão cotidiana sobre o tema são tabus tão fortes que a desinformação auxilia no engano que a população tem sobre as orientações sexuais diversas. Alguns coreanos enxergam a homossexualidade como distúrbio genético, problema psicológico ou apenas desequilíbrio religioso, é ligeiramente comum perceber que visualizam como algo que tenha sido uma escolha e portanto possível de parar.

No entanto, a história não é apenas opressão, mas também resistência. Inúmeras tentativas de organização pelos direitos LGBTs cresceram com a expansão da coreia para o mercado e reconhecimento internacional. Em 1995, o estudante de pós-graduação, Dong Nam Sue, da Universidade de Yonsei em Seul se assumiu homossexual em um anúncio de um jornal universitário propondo a organização de um “Clube de Gays e Lésbicas” chamado “Come Together” Em dezembro do mesmo ano, Dong junto com outros membros do Come Together compareceram em programas de entrevistas na televisão (Korean Broadcasting System) para discutir a discriminação e a rejeição aos LGBTs:

“A Coreia não é apenas um lugar muito mais conservador em termos de atitudes em relação à homossexualidade, mas também um lugar difícil para estabelecer uma identidade pública fora de funções estereotipadas. As esmagadoras pressões sociais, que forçam as pessoas a se casar e procriar acabam virando obstáculos para que gays e lésbicas se manifestem e formem organizações sociais distintas. “ (KBS, 1995, 15 de Dezembro).

Muitos enxergam a discussão feita sobre o tema em uma mídia televisiva como um grande passo. Posteriormente organizações de LGBTQs como a Maeun 001 (Same Mind) na Universidade Nacional de Seul e a Saram & Saram (Person with Person) na Universidade da Coreia foram criadas e todas unidas em divulgar mais sobre os movimentos LGBTs e as reivindicações do movimento. Apesar dos avanços, também é importante destacar que maioria dominante ainda vê a homossexualidade como um desvio e uma atitude moralmente corrupta.

Atualmente estudante no Instituto de Artes de Seul, Go Tae-Seob, mais conhecido como Holland, é o primeiro idol assumidamente gay na Coreia. Seu primeiro single “Neverland” estreou em janeiro de 2018 e recebeu a classificação de +19 apenas por conter imagens de um beijo gay. Já assumido para a família, decidiu fazer sua estreia como artista para falar abertamente sobre suas experiências com a LGBTfobia e o preconceito no país, diversos acordos com empresas e gravadoras foram quebrados quando ele relatou seu desejo de discutir sobre discriminação LGBT. Seu primeiro single foi feito com o dinheiro economizado com o emprego de meio período por cerca de 2 anos.

 
Clipe do Holland

Além de torcermos pela felicidade e aceitação dos nossos idols favoritos, devemos apoiar idols como Holland, que se colocam como resistência em um cenário tão sufocante como o da Coreia. Inúmeros idols também já reafirmaram seus apoios para a comunidade LGBT, mas como destacamos, são caminhos longos, difíceis, mas não impossíveis de conquistar.

Fonte: Young‐Gwan Kim & Sook‐Ja Hahn (2006): Homosexuality in ancient and modern Korea, Culture, Health & Sexuality: An International Journal for Research, Intervention and Care, 8:1, 59–65


Carlos Henrique, KPR – Kpop pela Reunificação

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